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Música

Você sai de casa aborrecido com algum problema e resolve sentar no banco de uma praça para espairecer. A alguns metros de distância, você ouve um samba antigo tocado por um grupo de senhores (provavelmente aposentados que se reúnem ali para socializar). Inicialmente, chama a atenção a musicalidade, a disposição daquelas pessoas, mas o problema que lhe fez sair de casa persiste martelando em sua cabeça. O tempo vai passando e, automaticamente, você vai batendo o pé no chão, acompanhando o ritmo da música. Mais um tempo e você está em pé, junto com outros curiosos, vendo a arte se manifestar em praça pública. O problema? Ficou pra depois. Não é de hoje que a música é utilizada como ferramenta de transformação emocional das pessoas. Da trilha sonora dos filmes que assistimos, que associam as características da cena (suspense, humor, horror) ao tipo de música, até o "background" musical das lojas modernas, que pretendem associar o conceito da marca a determinado estilo musical, a música é vastamente utilizada para convencer os indivíduos. Inclusive, existem muitos estudos pesquisando a associação de gêneros musicais a comportamentos e sensações, e muito dessas associações estão disseminadas na sociedade: quem ouve música erudita é preconcebido deste ou daquele modo, diferentemente de quem ouve rock, por exemplo. Mas não pretendemos avançar nessa seara, por enquanto. Hoje pretendemos sugerir a reflexão sobre o potencial das bandas de música nas polícias brasileiras, principalmente entre as polícias militares e guardas municipais, que lidam cotidianamente com o público nas ruas. "Qual seria o problema das bandas policiais formarem subgrupamentos que se dediquem ao rock, ao reggae, ao hip hop, ao samba, ao choro, axé music e outros gêneros que dialoguem de modo eficiente com a população local - principalmente com os jovens?" Parece que todas as polícias militares brasileiras possuem banda de música, geralmente constituída formalmente em lei, com chefia própria e um corpo de músicos que podem ser selecionados através de concurso externo (é feito um concurso específico para cada tipo de instrumentista) ou seleção interna (verifica-se entre os policiais quem é voluntário e possui conhecimento musical adequado). Isso significa que do ponto de vista estrutural as bandas já possuem, em todo o país, uma concepção formal mínima. Em rápida pesquisa na internet descobrimos que a banda policial mais antiga do país é da Polícia Militar do Paraná, fundada em 12 de março de 1857. A partir disso, um segundo desafio se impõe: como fazer que a música das polícias seja uma "ponte" de aproximação emocional entre os policiais e a população? Para além da musicalização marcial das solenidades militares, o que é possível fazer para que nossas bandas de música sejam disseminadas como instrumentos de visibilidade institucional e convencimento, principalmente entre os jovens? Muito já tem sido feito. A Polícia Militar do Espírito Santo (PMES), por exemplo, desde 1999 criou uma "Banda Junior", composta atualmente por mais de 250 jovens: Formada por crianças e adolescente da Grande Vitória a Banda Mirim passou a ser um serviço oferecido à sociedade capixaba pela Polícia Militar, no Quartel do Comando Geral, em Vitória. Em 2003, com sua evolução técnica, surge o “Projeto Cultural Banda Júnior da PMES”, que busca oportunizar o acesso de crianças e adolescentes a um novo cenário sociocultural e promover a valorização das principais instituições sociais. A capacitação dos alunos, que ingressam entre 11 e 14 anos de idade e podem participar da iniciativa até aos 18 anos, é desenvolvida ao longo de três anos. Neste período os 15 policiais militares responsáveis pela formação têm a missão de contribuir para o desenvolvimento sócio-cultural e humano de crianças e adolescentes, transmitindo valores como disciplina, ética e respeito ao próximo. No Rio de Janeiro, neste mês, policiais militares do 12º BPM (Niterói) foram destaque no jornal "O São Gonçalo" por desenvolverem o projeto "Tocando com a PM", de iniciação musical para crianças de escolas públicas. Mostraram que é possível figurar na capa de um jornal de grande circulação sem fazer parte do BOPE: Da Bahia, recentemente, o Cabo PM José Carlos foi destaque nacional no programa "Encontro", apresentado por Fátima Bernardes, cantando e emocionando o país: httpv://youtu.be/B3lJLcV5M90 *** Algumas polícias dividem sua estrutura musical em bandas, conjuntos ou seções. A Polícia Militar de Minas Gerais, por exemplo, faz uma interessante divisão, considerando as possibilidades de apresentação e o gênero musical. Fazem parte da Banda da PMMG, entre outras composições, as seguintes: Saxofonista; Saxofonista e Tecladista; Quarteto de Cordas; Quinteto de Sopros; Sexteto de Metais; Conjunto de Câmara; Bandas de Música; Banda Sinfônica; Big Band; Orquestra Show; Orquestra Sinfônica. Esse modelo chama a atenção pelas diversas possibilidades de atuação, a depender do contexto exigido para a apresentação. Aliás, há aí um princípio que deve ser expandido considerando as peculiaridades e popularidades locais onde atuam as polícias. Qual seria o problema das bandas policiais formarem subgrupamentos que se dediquem ao rock, ao reggae, ao hip hop, ao samba, ao choro, axé music e outros gêneros que dialoguem de modo eficiente com a população local - principalmente com os jovens? É um desafio atualíssimo para as polícias brasileiras entenderem, se aproximarem e manterem laços e diálogos permanentes com as comunidades, principalmente as periféricas. A música pode ser um elemento diferenciador e facilitador desse desafio. Que as polícias do povo mais musical do mundo aproveitem nossa característica para fazer policiamento!
Assim como no interior das polícias brasileiras existem elementos culturais que favorecem a atuação desnecessariamente violenta, há, também, elementos culturais que influenciam jovens, predominantemente aqueles moradores de favelas, a se tornarem autores de violência e opositores das ações policiais, principalmente as ações repressivas. Claro: não é possível medir as duas instâncias culturais. Policiais são profissionais, têm como dever de ofício não praticar a violência gratuita e são agentes do Estado pagos (geralmente mal) para garantir a vida. Já os jovens são espíritos influenciáveis, aguerridos, facilmente inseridos em contextos de oposição ao que é normal, tradicional. Em uma palavra, os jovens são "insatisfeitos": em qualquer lugar do mundo. Na Bahia, um dos elementos culturais que parece ter se inserido como fortalecedor desta sanha pelo enfrentamento violento é a música conhecida - sem muito rigor teórico-musical - por "pagode" ou "pagodão", uma espécie de derivação da Axé Music com bastante apelo a batidas percussivas e letras geralmente incitadoras de aa lgum tipo de violência (inclusive sexual, principalmente degradadora da condição feminina). A refrão abaixo, por exemplo, parte da canção "Dedo calibrado", da banda "A Bronkka" parece sugerir e incentivar o contexto da troca de tiros: "Por isso quando eu desço, É dedo calibrado, É sangue no olho, Comigo é mais em baixo Se é pra é trocar Vamos trocar, vamos trocar Se é pra trocar, vamos trocar Vamos trocar" Um outro clássico da mesma banda é intitulado "Ele desce murro no queixo", e tem como refrão o trecho "Ele pode ser alto grande ou o que for/Panca no queixo ele desce". A banda Black Style, por sua vez, grande sucesso nas rádios e festas populares da Bahia, se destaca por tematizar a condição feminina, geralmente de modo questionável do ponto de vista da dignidade. O refrão da canção "Balance o rabinho cachorra" é bem sintomático: "Procurei por minha cachorra Ninguém sabe, ninguém viu Olhei de baixo da mesa, procurei lá no canil Ela saiu da coleira, deve tá no pagodão Balance o rabinho chamando atenção, no assovio do Robyssão [...] Balance o rabinho cachorra Balance o rabinho cachorra" O Robyssão que a música se refere é o vocalista da banda, que recentemente deu a seguinte declaração para o jornal Correio (posteriormente amenizada por sua assessoria): "Eu percebi que o meu público, o público do pagode, sempre admirou a vida do crime. O cara que é gângster, tem vontade de pegar uma grana, pegar dez mulheres e tal. Então quando criei esse personagem, o público se identificou" Note-se, a propósito, que alguns dos músicos das bandas que cantam este estilo se envolveram em fatos bem semelhantes ao que pregam suas músicas, como o caso do ex-vocalista da banda "A Bronkka" que é suspeito de ter praticado dano às instalações de um hotel quando estava acompanhado de menores, e o célebre caso da banda New Hit, que mesmo indiciados por estupro a fãs menores continuam fazendo shows. Sim, discursos artísticos, como outros elementos simbólico-culturais, podem se converter em violência, motivo pelo qual certas composições e apologias são questionáveis do  ponto de vista qualitativo. Há canções que não servem para nossos jovens, que degradam as meninas, e incentivam o pior modo possível de resolução de conflitos para os meninos. O que fazer, já que esta arte é largamente consumida por nossas periferias? Me parece que devemos caminhar no sentido da afirmação do estilo, que não é positivo nem negativo, já que esta definição depende do senso estético (vide o Olodum, que bem usa o Samba Reggae em prol dos jovens de periferia em Salvador), qualificando as mensagens que esta música traz consigo. O pagode baiano já agrada a juventude, restando então apenas que o Estado, mediante políticas culturais, positive as intenções embutidas em seu conteúdo semântico. Já pensaram em uma oficina de instrumentos e letras de pagode baiano?   PS: No Rio, o Funk virou movimento cultural. O pagode da Bahia devia alcançar o mesmo status.
Hoje em dia notamos diversas formas para se exercer a liberdade de expressão: músicas, propagandas de TV, outdoors, passeatas etc., porém, existem algumas destas manifestações que sequer podem ser chamadas de artísticas, e são totalmente diversas do que se chama de cultura, indo de encontro à chamada livre manifestação. Qual seria então o limiar entre o direito e a censura? Qual a fronteira entre a liberdade de expressão e a apologia ao crime e a instigação à violência, por exemplo? Planet Hemp: a banda chegou a ser proibida de tocar por decisão judicial - Foto: OGlobo Certamente, em algumas situações não resta dúvida de que o autor não se preocupa, definitivamente, com a ordem pública, tampouco com os alarmantes índices de violência publicados nos mais diversos meios de comunicação quando vai criar sua obra. Alguns inescrupulosos autores não têm a noção da proporção que tomaria suas produções. Percebe-se, muitas vezes, que a primeira hipótese, a da despreocupação, é a mais cabida, considerando que com a tecnologia e acesso a informações que temos hoje, não se permite mais a alegação da "inocência". Ao que me parece, um forte exemplo nesta seara é uma produção da Banda "Fantasmão", corriqueira nas festas populares e carnavais na cidade de Salvador, que além de expor o nome do boxeador Acelino Popó Freitas, convida, por intermédio da música, a população a ter atos violentos descabidos em festas populares, como já é de costume nas suas numerosas e desastrosas músicas (veja o vídeo). Frases como "[...] eu não sou Popó mas vou dar murro na cabeça dele que é pra ele se ligar [...]", e "[...] cola atrás do trio, todo marrento, se o cara tira onda, ele sempre cai pra dentro [...]", fazem parte da sessão de sandices na música. Além disso, existem gravações desta mesma banda tocando uma já polêmica música de outro grupo, o Planet Hemp (antiga banda do cantor Marcelo D2, que já chegou a ser proibida de tocar por ato judicial), com algumas modificações, a seu próprio critério, agora já cantando apologia ao uso de drogas e sua a rebeldia com a Polícia Militar. Entendo que não se pode admitir que músicas e bandas com esse tipo de produção façam parte de um cenário musical nas festas de grandes e médias aglomerações, onde a violência se prolifera com bem mais facilidade. O incentivo também faz parte das fases do crime. Ao invés de mostrar alegria e festividade nas comemorações, só atrairá a violência e o caos que, sem sombra de dúvida, será bastante reprimido por todos os ramos da segurança pública. "Apenas uma laranja pode levar todo o cesto a perder". *Kalil Rebouças é Aluno-a-oficial da PMBA e atualmente cursa o 3º ano do Curso de Formação de Oficiais.