Pesquisa no Rio estuda rejeição ao “Bandido Bom é Bandido Morto” 
Rio de Janeiro bate recorde de homicídios 
256 cidades do Estado de São Paulo não possuem Delegado 

PCC

Qualquer observador da área de segurança pública (mesmo o mais desavisado) sabe que as disputas entre grupos que atuam no mercado do crime geram confrontos que, obviamente, não têm a legalidade como característica. Por isso é comum ver o recrudescimento da quantidade de homicídios em regiões com concorrência acirrada em relação a pontos de venda de drogas, por exemplo. No contexto das práticas criminosas, a "livre concorrência" não costuma gerar diminuição de preços, mas tentativa de eliminação do concorrente. Da mesma forma, é possível que exista o monopólio, onde o proprietário do negócio criminoso buscará todos os mecanismos possíveis para evitar o surgimento de até mesmo pequenos concorrentes. No mercado legal, quando há predominância quase exclusiva de determinado empreendimento ou produto em relação aos demais, é muito comum que elementos de convencimento ideológico sejam implementados para garantir a liderança (vide o aparato de marketing e propaganda que organizações como a Coca-Cola, Apple, McDonald's e até mesmo a Rede Globo utilizam). No "mercado do crime", não só isso: ameaças, agressões e assassinatos também são comuns. [Parênteses para a denúncia de Jô Soares no Troféu Imprensa de 1987, acusando a Rede Globo de boicotar artistas que saíssem da emissora para concorrentes] Essas percepções são muito válidas para a discussão em torno do que ocorreu no estado de São Paulo nos últimos anos, onde está instalado o núcleo do que pode ser considerada (poucos têm dúvida) a maior organização criminosa do país, o Primeiro Comando da Capital (ou PCC). À luz de um dos principais estudos já feitos sobre o PCC, a tese de doutorado da professora da USP Camila Nunes Dias (Da pulverização ao monopólio da violência: expansão e consolidação do Primeiro Comando da Capital (PCC) no sistema carcerário paulista), há uma relação causal entre a redução da quantidade de homicídios no estado de São Paulo nos últimos anos e a predominância da facção. Vejam o gráfico abaixo, extraído da tese de Camila, com uma curva de redução de homicídios significativamente acentuada entre 1996 e 2009: Para Camila, a explicação do "segredo" da fórmula estaria situada principalmente no próprio PCC: "Ainda que outros fatores possam ser elencados para explicar essa queda, a velocidade com que ela ocorreu e a extensão que ela adquiriu num período relativamente curto, não encontram ressonância nas explicações oficiais para este fenômeno. Esta compreensão deve considerar os efeitos políticos e sociais da emergência desta organização que monopolizou as oportunidades de poder político e econômico relativos ao 'mundo do crime', desenvolveu mecanismos de controle social que produziram uma drástica redução do uso da violência física nos conflitos interpessoais e, assim, possibilitaram a imposição da paz nestes territórios." (p. 332) Ainda falando de ideologia para a manutenção de um monopólio, vale ler alguns trechos do trabalho da pesquisadora paulista, sobre a a cultura vigente no Primeiro Comando da Capital: "O Comando é um ente coletivo que está acima de quaisquer individualidades e aos irmãos cabe seguir a sua disciplina e obedecer as ordens e decisões que são proferidas a partir desta coletividade. Neste sentido, essa superioridade do Comando implica que a submissão dos irmãos a essas determinações devem ocorrer em detrimento de quaisquer outras relações, de cunho profissional, afetivo, familiar ou pessoal." (p. 282)" "O debate, portanto, é um mecanismo que apenas na terceira fase do PCC adquiriu um lugar proeminente na dinâmica do Partido, como instância deliberativa por excelência, a partir do qual devem se dar as intervenções dos irmãos na mediação e resolução de conflitos e, sobretudo, no julgamento e na definição de punições." (p. 276) "De todas as transformações que decorreram do processo de expansão do PCC, a expropriação dos indivíduos da possibilidade de usar a força física na resolução dos próprios conflitos é, certamente, um dos elementos de maior impacto no sistema prisional, onde a violência física sempre se constituiu como balizadora das relações sociais e de poder entre os indivíduos e na construção das hierarquias sociais." (p. 305) Parece que o PCC descobriu mecanismos não-violentos para manter seu monopólio. Notícias recentes: PCC queria matar governador A tese da professora Camila Nunes Dias é de 2011. Sua defesa gerou muita controvérsia e discordâncias entre membros do Governo, policiais e outros pesquisadores. Mas hoje, escutas telefônicas feitas pelo Ministério Público divulgadas no jornal Estado de São Paulo, geraram a seguinte manchete:   Afirmação de Marcola: "hoje pra matar alguém é a maior burocracia" [...] "Então quer dizer, os homicídios caíram não sei quantos por cento e aí eu vejo o governador chegar lá e falar que foi ele". Além de reivindicarem a condição de "pacificadores" da sociedade paulista, membros do PCC se referem ao governador do estado como alvo da facção: O Primeiro Comando da Capital (PCC) decretou a morte do governador Geraldo Alckmin. Interceptações telefônicas mostram que pelo menos desde 2011 a facção planeja matar o governador de São Paulo. O Estado teve acesso ao áudio de uma interceptação telefônica na qual um dos líderes do PCC, o preso Luis Henrique Fernandes, o LH, conversa com dois outros integrantes da facção. O primeiro seria Rodrigo Felício, o Tiquinho, e o segundo era o integrante da cúpula do PCC, Fabiano Alves de Sousa, o Paca. A conversa ocorreu no dia 11 de agosto de 2011, às 22h37. Paca questiona os comparsas sobre o que deveriam fazer. Em seguida, manda seus comparsas arrumarem "uns irmãos que não são pedidos (que não são procurados pela polícia) e treinar". O treinamento para a ação seria para fazer um resgate de presos ou para atacar autoridades. No meio da conversa, surge a revelação. LH diz que o tráfico de drogas mantido pela facção está passando por dificuldades. E diz: "Depois que esse governador (Alckmin) entrou aí o bagulho ficou doido mesmo. Você sabe de tudo o que aconteceu, cara, na época que 'nois' decretou ele (governador), então, hoje em dia, Secretário de Segurança Pública, Secretário de Administração, Comandante dos vermes (PM), estão todos contra 'nois'." Em escutas recentes, a ordem de matar o governador foi novamente mencionada por membros do PCC. [Ouça as escutas telefônicas feitas pelo MP-SP] Como se vê, toda a discussão e análise feita em torno da relação entre a redução nos últimos anos do índice de homicídios no estado de São Paulo e a atuação do PCC deve, sim, ser considerada. Para finalizar, ouçam a entrevista que Camila concedeu à Rádio CBN sobre as recentes escutas telefônicas - "não é novidade para a própria polícia, nem para o governo": Sugiro a aquisição e leitura do livro da professora, "PCC - hegemonia nas prisões e monopólio da violência". Essencial para entender o problema.