Pesquisa no Rio estuda rejeição ao “Bandido Bom é Bandido Morto” 
Rio de Janeiro bate recorde de homicídios 
256 cidades do Estado de São Paulo não possuem Delegado 

Protestos 2014

Parte da população brasileira tem ido às ruas nos últimos meses para protestar manifestando indignação e descontentamento com o estado de coisas no país. Ao adotar equivocadamente táticas violentas para expressar esse descontentamento, alguns dos manifestantes alimentaram um ciclo de violência que tem o abuso da força policial como componente.  Nesse ciclo, só se vê dedos apontados: policiais acusam violência nos manifestantes e manifestantes acusam violência nos policiais. Virou algo como briga de torcida organizada, e o ciclo se mantém, explosivo e tenso. Os policiais precisam assumir sua parte na condição de agentes do Estado. Somos responsáveis por garantir segurança, evitar a violência, mediar conflitos. Não podemos ter como referência de comportamento ações não profissionais e ilegais. Devemos praticar a superioridade própria do profissionalismo, que não se confunde com arrogância, mas garante que não sejamos atingidos por motivos e sentimentos comuns a quem não está preparado para os desafios do nosso ofício. É inaceitável que um policial diga: "se um manifestante pode ser violento e agressivo, por que eu não posso ser?". Porque somos agentes do Estado. Profissionais! É inaceitável que um policial diga: "se um manifestante pode ser violento e agressivo, por que eu não posso ser?". Porque somos agentes do Estado. Profissionais! Mas isso não legitima a violência praticada por qualquer manifestante. Pelo contrário: dá instrumentos emocionais essenciais para que possamos lidar com esse tipo de conduta, prevenindo e reprimindo qualificadamente. Não há dúvidas que boa parte dos governantes tenta garantir, custe o que custar, a manutenção do poder independentemente do respeito a direitos e liberdades, e tentam manipular a forma de atuar das polícias para executar esse objetivo. Objetivos alcançados, se cair bem frente ao desgaste midiático, o poder de ocasião pune severamente os policiais pelos atos cometidos. A notícia a seguir ilustra bem o quanto foi trágico para os policiais militares que se travestiram de carrascos do poder recentemente: PM determina prisão administrativa de quatro policiais acusados de agredir e até roubar manifestantes no último domingo O Comando da Polícia Militar determinou, nesta terça-feira, a prisão administrativa de quatro policiais que atuaram na manifestação do último domingo, na Praça Saens Pena, na Tijuca, Zona Norte do Rio. A corporação informou ainda que três Inquéritos Policiais Militares (IPMs) foram abertos para apurar a conduta dos agentes. Durante o protesto, um cinegrafista canadaense foi agredido e uma mulher levou dois pontapés de um PM, em cena registrada por cinegrafistas amadores, além de outras denúncias de excessos. Ainda segundo o Comando da PM, os quatro policiais já receberam determinação para se apresentarem ao Batalhão de Policiamento de Grandes Eventos, onde permanecerão presos por ordem do comandante da unidade. São eles: o soldado Carlos Henrique Ferreira, acusado da agressão ao cinegrafista canadense Jason Ohara; o soldado Cristiano Ximenes, suspeito de ter roubado a câmera do jornalista estrangeiro; o soldado Jair Portilho Júnior, acusado de agredir um fotógrafo; e o soldado Rogério Costa de Oliveira, que aparece no vídeo chutando a jovem. Também foi aberta uma sindicância na Corregedoria para apurar a denúncia de que um policial teria assediado uma manifestante. Em cenas que também foram filmadas por cinegrafistas amadores, uma mulher, depois de queixar-se de ter sido agredida, ouve um PM ironizar: “Machucou? Machucou?” O agente ainda diz, em seguida: “Senti química e não foi gás lacrimogêneo. Foi admiração”. Fonte: EXTRA Veja os vídeos a que se referem a matéria: httpv://www.youtube.com/watch?v=iugprDMh0Uo httpv://youtu.be/2i9RylL6fcg Além de desumanidade, falta de profissionalismo e ineficiência, abusar da força é ingenuidade.
Sou simpatizante de qualquer forma de manifestação e reivindicação popular. Ao mesmo tempo, sou avesso a qualquer forma de violência. Esses dois posicionamentos tornam bastante complexa a análise de algumas táticas de manifestação que ultimamente têm se apresentado no Brasil. O caso não é julgar se nosso país está bem ou não, se o Estado comete violência ou não, se temos ou não educação, saúde, infraestrutura ou segurança de qualidade. É mais do que claro que o Estado brasileiro é perverso, elitista e autoritário. O ponto a se discutir é a violência enquanto tática de reivindicação. Ou seja... Quanto há de ganho político no protesto que admite depredações, enfrentamento à força policial e práticas afins? Particularmente percebo o uso da violência em manifestações como contraproducente para a própria manifestação, que acaba se inserindo num ciclo comum a qualquer ato onde a violência esteja presente. Seguem abaixo os cinco principais motivos para não usar violência em protestos: 1. Justificam a repressão policial Quanto mais disposto ao enfrentamento estiver um manifestante mais repressivas as forças policiais serão - com justificativa legal para isso. Ao lançar uma pedra em um policial, está garantida a legítima defesa por parte deste, que pode usar de meio proporcional para repelir a agressão. Às vezes ocorre do policial extrapolar essa prerrogativa, e então o ciclo de violência mútua entre policiais e manifestantes se inicia terminando com feridos, presos e até mortos - como já ocorreu. 2. Abrem espaço para extremistas Quando um grupo se admite enquanto autor legítimo de violência, abre espaço para que modalidades ideológicas extremistas componham seus quadros - inclusive aqueles que proclamam a violência pela violência. Por isso deve ser muito aprofundado o debate sobre o controle do uso da força por parte das polícias (que usam a força em nome do Estado). E quando isso se dá como tática de reivindicação popular? Qual o controle sobre as intenções e ações de seus adeptos? 3. Dão imagens negativas para que a mídia explore A grande mídia, de maneira geral, está comprometida com os grandes governos e as grandes corporações - seus principais anunciantes e financiadores. No mundo todo esses são os alvos das insatisfações populares, por motivos óbvios: as elites não têm do que reclamar, e sempre terão a oposição da parte da população que se sente explorada e mal tratada. Ao se apresentarem violentos os protestos concedem a estética de irresponsabilidade e agressividade gratuita, tudo que a grande mídia precisa para negativar inclusive as pautas das manifestações. 4. Espantam manifestantes pacíficos O público de manifestações geralmente é composto por jovens entusiasmados com uma afirmação política. Ao situar práticas violentas como ingrediente dessas manifestações (algo sempre propagado e estigmatizado pela grande mídia) a tendência é que boa parte dos interessados em se manifestar evitem participar dos protestos, ou sejam desencorajados por familiares e amigos. 5. Justificam o discurso em favor da "ordem" Todo governo, qualquer que seja a orientação ideológica do partido no poder, dirá que "admite manifestações democráticas" mas não tolerará distúrbios na ordem e na segurança da população. Esse posicionamento, que parece defender os interesses sociais, na prática, visa a manutenção do poder onde ele está. Protestos violentos incentivam esse discurso e geram medidas governamentais como a criação de leis draconianas e gastos com estruturas repressivas (colocar as Forças Armadas nas ruas, por exemplo). *** Quando o povo vai às ruas (como ocorreu em junho do ano passado) qualquer governante se sente pressionado a realizar as reformas em prol de mais justiça social. Ao praticar violência, esse mesmo governante encontra a desculpa que queria para descaracterizar todo e qualquer ato de protesto. Mesmo que as causas sejam justas, as táticas de reivindicação devem ser corretas, eficientes e legítimas.
Só quem é policial militar sabe o quanto é desgastante um serviço de mais de 12 horas ininterruptas trabalhando na rua, como denunciaram policiais militares do Rio de Janeiro que atuaram em manifestações contra a Copa do Mundo e não tiveram sequer uma condução que os levasse de volta às suas unidades de origem. Segundo o Jornal O DIA, os policiais militares tiveram que pagar táxis para retornar para casa: Rio - Policiais militares que acompanharam uma manifestação contra a Copa do Mundo, em Copacabana, nesta quinta-feira, precisaram pegar táxis para retornarem para o batalhão. Os PMs, inclusive alguns de batalhões de cidades do interior, aguardavam desde às 21h por ônibus da corporação que não foram os buscar. Cansados de esperar, os militares esperavam sentados no chão, em frente ao Hotel Copacabana Palace. Eles aguardavam pela condução para os levarem para o Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Praças (Cfap), em Sulacap, na Zona Oeste. Alguns policiais viajaram de cidades como Itaperuna, Macaé e Campos dos Goytacazes, na manhã desta quinta-feira, para reforçar o policiamento e retornarão para suas cidades na madrugada de sexta-feira. Para chegaram até o Cfap, os policiais pararam táxis e pagaram a corrida com recursos próprios. Eles contaram que trabalharam por mais de 14h em pé. Se engana quem pensa que esse é apenas um grave desrespeito ao profissional e ser humano policial. É também um desmando que gera consequências imediatas na relação entre o policial e o cidadão. Fatos assim atingem o humor e a motivação do PM, que deixa de prestar o serviço que a sociedade exige. Será que alguém responderá por isso?
A Copa do Mundo do Brasil já está em andamento, e centenas de milhares de policiais estão envolvidos direta ou indiretamente no policiamento voltado para o grande evento. Já que temos Copa, vale a pena cada policial refletir sobre o que deve caracterizar sua atuação nesse período. Seguem algumas dicas: Você não trabalha para a FIFA Embora vários recursos públicos e até medidas jurídicas extremistas tenham sido adotadas para que a Copa do Mundo ocorra no Brasil, vale lembrar que os policiais são servidores públicos, e não funcionários da Federação Internacional de Futebol (FIFA). Agir com paixão em defesa dos interesses privados de uma organização privada que está organizando um evento privado é deveras arriscado e incoerente com o mandato policial, que tem natureza pública. Não se envolva nas provocações Alguém tem dúvida de que a polícia será alvo de provocações nas manifestações que por ventura ocorram? Seja por atuações controversas seja por materializar-se na mais próxima e visível representação do Estado enquanto os protestos ocorrem, a tendência natural é que a polícia seja alvo de pilhérias e palavras de desafio. Não se envolver com essa atmosfera é essencial para não perder a cabeça e evitar agir desastradamente. Se for necessário reprimir, seja pontual É dever do policial coibir crimes cometidos por manifestantes (dano ao patrimônio público ou privado, por exemplo). Porém, é importante ressaltar que quando o uso da força se fizer necessário ela deve ser utilizada pontualmente, não se justificando assim estender a ação de repressão contra quem não está praticando crimes. Lembre-se do valor da Liberdade de Expressão Nós, policiais (principalmente os militares), sabemos bem o quanto é danoso ter restrita a Liberdade de Expressão. Cotidianamente reclamamos das dificuldades de nos opor a políticas de ocasião que são danosas à categoria e às instituições policiais. Generalizar qualquer manifestação como "vandalismo", criminalizando a Liberdade de Expressão, é fazer com que as tais políticas de ocasião prevaleçam dando as cartas sem qualquer oposição legítima. Onde a corda arrebenta? Ações abusivas praticadas por policiais em manifestações ultimamente tem gerado muita audiência e repercussão. Não há governo, chefe ou comandante que consiga estancar o sangramento da reputação de um policial que tenha se excedido em serviço. Não há governo, chefe ou comandante que "aliviará" na adoção de medidas legais contra policiais que cometam abusos públicos. Pense nisso! Ative sua "calculadora" de bens jurídicos Considerando tudo o que foi dito acima, fica como última palavra o tradicional "bom senso", que nada mais é que o resultado das contas acertadas entre os bens jurídicos que o policial têm que lidar. Dentro do que a lei permite, há muito a ser feito para dosar adequadamente as medidas adotadas nas diversas situações de infração. Ser proporcional é fundamental!
Já presenciei várias ocorrências em que, na ausência de meios para aplicar a força progressivamente, o policial se excedeu e acabou utilizando a arma de fogo indevidamente - atirando para o alto, por exemplo. Para quem não sabe, o policial é humano, corre o risco de se desesperar, além de precisar se defender de acordo com o que a lei estabelece, proporcionalmente. Todo o mundo civilizado e democrático utiliza o conceito de uso progressivo da força para suas polícias. O modelo abaixo, divulgado pelo Ministério da Justiça brasileiro em seus cursos sobre Uso da Força, é bem didático e mostra como o policial deve se comportar, de acordo com a postura do suspeito: Retirar os equipamentos que permitem as "técnicas defensivas não letais" (penúltimo degrau da pirâmide) obriga o policial a, instintivamente até, saltar ao último grau - a força letal. E, repito, não são poucos os casos em que isso ocorre pela simples falta de equipamento adequado. Ainda há polícias no Brasil que proíbem seus policiais de utilizarem, por exemplo, spray de pimenta na atividade policial ordinária, o que significa quase uma autorização ao abuso (ou o policial se deixará agredir?). É nesse contexto que enxergo a discussão que o Ministro da Justiça vem estabelecendo acerca da utilização ou não da "bala de borracha"  em protestos. Como todo instrumento de uso da força, a munição de borracha pode ser utilizada de maneira trágica - como foi o caso da repórter da Folha de São Paulo atingida nos protestos do ano passado -  e exige treinamento, doutrina e instrução para seu uso. E responsabilização do policial, caso cometa abuso. O caso de um agressor partindo para cima de um policial com uma barra de metal ou madeira é simbólico para a utilização da munição de borracha. Em casos assim, mesmo o espargidor de pimenta ou outra substância provavelmente será ineficaz. Por isso fica claro que a utilização da munição de borracha, enquadrada na técnica e na proporcionalidade do uso da força prevista em lei, é uma possibilidade razoável de instrumento não letal (salvo outra possibilidade técnica que a substitua). Bem capacitados e sem ordens políticas repressivas irresponsáveis certamente os policiais usarão este e outros equipamentos de forma adequada.
Nós, policiais, que temos sérias restrições em relação ao direito de manifestação sabemos bem o quanto é danoso ter essa possibilidade negada. Esse é um primeiro elemento para reconhecer que é prejudicial criminalizar protestos e manifestações. No momento de grande comoção frente à lamentável morte do cinegrafista da BAND, há setores da imprensa, das polícias e dos governos que estão militando direta ou indiretamente em prol da anulação da legitimidade de protestos no país. É interesse claro da estrutura de poder dominante que não haja discordância pública em relação a suas medidas (ou ausência delas). Quando o povo conectado vai às ruas e se afirma enquanto organização – independentemente de causa central e liderança – faz tremer o mais aberto dos governantes. Isso porque governar, na maioria das tradições políticas, é encerrar-se num gabinete e manter-se nele o máximo de tempo possível. É nesse contexto que são proferidos conceitos como o de “ordem pública”, “governabilidade” e até mesmo “segurança pública”. "Criar leis draconianas que atemorizam a participação dos cidadãos em protestos é um passo em direção à inviabilização das manifestações" E a violência nas manifestações, como a que vitimou o cinegrafista da BAND? Ela é explicada pela ingenuidade de alguns, arrogância e más intenções políticas de outros e erro estratégico quanto aos objetivos das manifestações. Curiosamente, os policiais que cometem violência também estão enredados em problemas semelhantes: muitas vezes o fazem por ingenuidade, arrogância, manipulação política e erro estratégico, quando pensam estar praticando algo com desdobramentos positivos. (Sobre a violência policial é preciso considerar, entre outros diferenciais, a investidura pública das nossas funções, o que exigiria discussão mais extensa). O que cabe refletir sobre a relação entre a polícia e as manifestações é justamente o modo de contenção preventiva da violência, e, quando a prevenção não for possível, a intervenção tópica e qualificada em manifestantes predispostos ao abuso (o que tecnicamente tem suas complicações, mas deve ser perseguido). Isso não pode se confundir com a inviabilização da manifestação, sob pena de praticarmos autoritarismo. Criar leis draconianas que atemorizam a participação dos cidadãos em protestos é um passo em direção à inviabilização das manifestações. Momentos de comoção como o atual são ideais para medidas antidemocráticas visando a preservação dos gabinetes. Discutir leis sobre as motivações dos protestos ninguém quer.   PS: O secretário de segurança do Rio, José Mariano Beltrame, está militando em prol de leis mais duras contra manifestantes que praticam violência. Ele lembra: "temos a Copa do Mundo à nossa porta".
A questão da violência, seja ela a policial ou a dos manifestantes, fato reverberado diariamente nos diversos meios de comunicação, é um ingrediente importante na discussão que trata sobre os protestos que ora ocorrem pelo país, porém, não deveria assumir o seu protagonismo. Este deveria residir sobre as questões que tratam da ineficiência das políticas públicas que o Estado brasileiro adota há anos, clara razão das manifestações, as quais, nem de longe, atendem as necessidades da população. O Brasil padece da falta de políticas públicas que respondam às carências do seu povo. Definitivamente, não dá para comemorarmos a realização de uma copa do mundo, que contou com bilhões de reais de investimento e um regime próprio de contratação de obras e serviços, enquanto obras de infraestrutura nas áreas de transporte, energia e saneamento, dentre outros setores, se arrastam sem prazos definidos para suas conclusões sob a alegação absurda de falta de recursos financeiros e de entraves burocráticos. É claramente perceptível o desvio da causa (motivos da insatisfação popular) para as consequências do problema (violência policial e dos manifestantes), e isto não se dá apenas através dos meios de comunicação de massa, mas é reproduzido também nos debates insosos fomentados nos meios acadêmicos, onde estudiosos e intelectuais não se distanciam do lugar comum que envolve apenas a questão da violência e os seus dois principais personagens: a polícia e os manifestantes. Esta falta ou distorção do foco principal das manifestações fica ainda mais visível quando percebemos a ausência de qualquer personagem político, seja de esquerda, direita ou centro, que se apresente como representante ou interlocutor legítimo dos anseios expressados pelas pessoas nas manifestações e que proponha soluções viáveis para os problemas levantados. Na falta destes, há espaço até mesmo para o batman. Os políticos que ousam aparecer, geralmente em busca de algum crédito eleitoral, confirmam apenas a máxima que estabelece o conceito da ordem sobre a lei, através da qual a repressão policial deve ser exercida com vigor contra aqueles que se arvoram a tentar expressar algum ato de insatisfação que coloque em risco determinado projeto político. Nesse contexto, a polícia é apenas a ponta de lança, a parte mais visível de um sistema excludente que é totalmente tutelado pelo Estado brasileiro. Ela se constitui no cordão de isolamento, na barreira de contenção que separa, de forma visível e quase sempre violenta, os que reclamam daqueles que têm o dever de ouvir e atender os reclames da sociedade. As polícias, sobretudo a Polícia Militar, estão pagando um alto preço por algo que não deram causa e, ainda que muitos prefiram o raciocínio limitado e reducionista que opõe os manifestantes aos policiais, os motivos das manifestações vão muito além disso. A política do panis et circenses, a alienação midiática e a passividade acadêmica conjugam para que o problema seja visto no seu plano mais básico, mais ralo. Porém, em verdade, é preciso não se deixar levar pelas sombras projetadas pelo fogo nem pelos ecos por suas vozes produzidos, mas sim nos aprofundarmos sobre os motivos reais e verdadeiros que estão presentes e que justificam as manifestações em curso.
No dia 1º de julho de 2013, este que subscreve foi responsável pela publicação do texto cujo título era “O lugar do repórter na manifestação” aqui no Abordagem Policial. Nele, resumidamente, foi criticada a visão unilateral e parcial de meios de comunicação que adotam um posicionamento quase sempre contra a Polícia, direcionando os trabalhos para esse ponto de vista. O pensamento foi ilustrado através do local onde se posicionam as câmeras durante os conflitos. Eis que ontem (06/02/2014), no Rio de Janeiro, o que indiretamente foi lançado como profecia nas entrelinhas daquele texto, aconteceu. O cinegrafista Santiago Ilídio Andrade, da Band, ficou no fogo cruzado entre “manifestantes” e policiais. Um artefato explosivo atingiu sua cabeça, fazendo-o cair ferido. Com precipitação e má intenção, a Globo News divulgou o depoimento de um dos seus profissionais acusando categoricamente a Polícia de ter praticado a agressão. Só que diversas fotos e filmagens evidenciaram, sem margem de dúvidas, que a violência partiu de um dos “cidadãos”, possivelmente integrante da facção Black Bloc. A teimosia foi peremptoriamente desconstituída pelo especialista procurado pela equipe de reportagem do Jornal Hoje, algo nem tão necessário, pois as características do artefato levam até um leigo a duvidar que tenha sido atirado por policiais. Coube então à dupla Sandra Annenberg e Evaristo Costa se desculparem, no Jornal Hoje deste 07/02/2014, disfarçando o constrangimento, pelo falso testemunho sustentado incisivamente pelo colega de trabalho. Ficou feio para um jornalismo tão influente como o da Rede Globo. Contribui para o aumento do descrédito na seriedade do trabalho do canal, principalmente em meio aos policiais e classes mais críticas que não se convencem imediatamente com o que os apresentadores falam na televisão. A Band, que, através de figuras como Ricardo Boechat, muitas vezes se posiciona deliberadamente contra a Polícia, sofre mais um revés. Em 2011, o cinegrafista Gelson Domingos foi alvejado por um tiro de fuzil disparado por marginais quando cobria um (suposto?) confronto no RJ. Agora foi a vez do repórter cinematográfico sofrer as consequências da realidade que resistem a encarar com lucidez. “O pior cego é aquele que não quer ver”.
Uma nova modalidade de evento vem ocorrendo com desafios para as polícias: o chamado “rolezinho”, reuniões marcadas predominantemente por adolecentes via mídia social (principalmente o Facebook), em shoppings centers frequentados pelas classes média e alta. Os rolezinhos têm se caracterizado pela natureza social da juventude presente, em sua maioria integrantes das camadas economicamente inferiores da sociedade, moradores da periferia, boa parte deles signatários da cultura da “ostentação”, uma forma particularmente chamativa de demonstrar a adesão a símbolos capitalistas – grossas correntes de outro, tênis e bonés coloridos de marcas famosas, smartphones etc. Abaixo, vídeo de um "rolezinho" num shopping em São Paulo: httpv://www.youtube.com/watch?v=9K11V6xJmls Esses jovens têm incomodado os intocados shoppings, seus frequentadores e proprietários, pois até então eram justamente os templos onde se podia simular viver em uma sociedade sem desigualdade. Lá, podia-se exercer a cidadania capitalista sem problemas. Comprar sem ser incomodado por “mal educados”, passear com “plena segurança”, assistir as belíssimas vitrines sem precisar passar para o outro lado da rua ao ver um “suspeito”. Os rolezinhos são, portanto, um evento social, econômico e político. E são também mais uma das provas das transformações interativas que estamos vivendo. "Sabemos bem o efeito da pura repressão em eventos desse tipo – os protestos do ano passado tiveram como causa de ampliação justamente a atuação policial desastrosa" Quanto mais conectada é uma sociedade mais fácil se torna a emersão de situações onde as vontades comuns são manifestadas. Nesse sentido, pouco importa que a causa do evento seja a insatisfação política, o “oba-oba”, uma comemoração ou a proclamação de um estilo de vida. Agora, caros policiais, teremos que aprender a lidar com o coletivo se manifestando sem qualquer liderança ou controle central. Em relação aos rolezinhos, concordo com Wagner Iglecias e Rafael Alcadipani em recente artigo na Revista Fórum: “nunca tivemos, em nosso país, amplos setores de elite que trouxessem consigo um projeto de nação, destinado a integrar nos direitos, na cidadania ou sequer no consumo os milhões de despossuídos. Quando muito nossa elites têm um projeto de classe, ou nem isso. Ao longo de séculos boa parte delas contentaram-se em intermediar negócios com os países mais ricos e levar sua parte, e a polícia que se vire para segurar a massa mulata e preta das periferias paupérrimas. Sempre foi assim”. Destaque para o trecho que se refere à polícia. Sabemos bem o efeito da pura repressão em eventos desse tipo – os protestos do ano passado tiveram como causa de ampliação justamente a atuação policial desastrosa. Fenômenos como esse não podem ser contidos com ação policial repressiva. Ao contrário: a ação policial acaba sendo combustível para a radicalização dessas manifestações (qualquer que seja a pauta, se houver pauta). É bem verdade que, como ocorreu em junho passado, ações violentas são flagradas aqui e ali, como mostra o vídeo abaixo onde um Guarda Municipal foi acuado em Guarulhos-SP: httpv://www.youtube.com/watch?v=lJlPbVQyogY E também é verdade que o ciclo de polarização já se iniciou, onde se dividem os que são “a favor” ou “contra” os rolezinhos, “a favor” ou “contra” as polícias, “a favor” ou “contra” os donos de shopping e por aí vai. É o que geralmente se faz quando uma questão tão complexa como a desigualdade deste país é posta para ser tratada apenas com repressão policial. Se o discurso que ganhar for o "contra" os rolezinhos e "a favor" dos shoppings e da repressão policial, o problema é mantido como está por mais um tempo. Algumas sugestões aos policiais: 1) Nossa atuação reativa não será a resolução para a desigualdade que esses eventos expressam; 2) Lembremos sempre a diferença entre o privado e o público; 3) Trabalhamos para o Estado, instituição da sociedade, não para parcela minoritária dela, mesmo a mais abastada economicamente; 4) Cuidado com ações isoladas; 5) Tentemos ser eficientes na prevenção a danos a qualquer direito. Mais uma vez, cai na conta da polícia o cuidado com algo muito maior do que ela pode cuidar. Paciência e tolerância serão fundamentais para lidar com esses eventos que parecem estar apenas em seu início.