Durante a crise, empresas de segurança privada crescem no Brasil 
Governo Temer planeja endurecimento de penas no Brasil 
Como as crianças brasileiras percebem a violência? 

ROTA

Novas informações tornaram mais complexo o contexto do assassinato do casal de policiais militares do estado de São Paulo e seus familiares, caso que o Brasil vem acompanhando sob a versão da autoria do filho dos PMs. Declarações do deputado estadual Major Olímpio indicam que ainda há muitas questões a se averiguar: A cabo Andreia Regina Bovo Pesseghini, 36, morta com a família na semana passada, foi convidada por PMS a participar de um roubo de caixa eletrônico. A declaração foi dada ontem pelo deputado major Olímpio Gomes (PDT). O parlamentar comunicou essa informação anteontem ao corregedor da PM, o coronel Rui Conegundes. Segundo a polícia, o filho da cabo, Marcelo Eduardo Bovo Pesseghini, 13, é o principal suspeito de ter matado a mãe, o pai, o sargento da Rota Luís Marcelo Pesseghini, 40, a avó, de 65 anos e a tia-avó, de 55 anos, na casa da família, na Brasilândia (zona norte de SP). Para a polícia, o crime ocorreu no dia 5 e o menino se matou após ir até a escola. De acordo com Gomes, Andreia avisou sobre o convite do roubo a seu superior, o capitão Fábio Paganotto, então comandante da 1ª Companhia do 18º batalhão. Paganotto tentou apurar o fato e acabou transferido, posteriormente, para o 9º batalhão. Gomes disse que os PMs não foram punidos. Paganotto foi um dos policiais que se envolveram, com PMs da Rota, na ocorrência que deixou seis suspeitos mortos em uma suposta tentativa de roubo a caixas eletrônicos no supermercado Comprebem, em Parada de Taipas (zona norte de SP), em agosto de 2011. Na última quarta-feira, o tenente-coronel Wagner Dimas, então comandante do 18º batalhão, disse em entrevista à rádio Bandeirantes que a cabo havia delatado colegas envolvidos em roubo a caixas eletrônicos e que não acreditava que o menino fosse o responsável pelas mortes. No dia seguinte, ele foi chamado para depor na Corregedoria da PM e desmentiu os fatos. Dimas foi afastado anteontem do comando do 18º batalhão. A PM não quis se pronunciar sobre o afastamento nem sobre as declarações de Gomes. CENA DO CRIME A casa onde a família foi morta não teve a cena de crime totalmente preservada. A informação consta de nota divulgada ontem pela Secretaria da Segurança Pública de São Paulo. "O departamento [Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa, DHPP] apenas confirmou afirmação da imprensa de que o local 'não estava totalmente idôneo'. Isso, evidentemente, não quer dizer que houve violação proposital da cena do crime", diz o texto. Sebastião de Oliveira Costa, 54, parente das vítimas, disse, no último sábado, que chegou à casa às 17h45 do dia 5 e que havia ao menos 30 PMs dentro dela, antes da chegada da perícia. A polícia pretende chamar para depor os policiais militares que entraram na casa antes da chegada da perícia. Leia na Folha... A linha de investigação que considera estas possibilidades certamente é bem mais desconfortável politicamente para o Governo paulista. Vamos continuar acompanhando...
Logo quando a notícia sobre o assassinato do casal de policiais militares em São Paulo veio a público, a primeira coisa que veio à cabeça de quem tem o mínimo de convivência com as dinâmicas da segurança pública no país, foi a relação com o Primeiro Comando da Capital, organização criminosa de destaque no estado (e em várias outras partes do país, como se sabe). Para os espectadores, era provável que aquele fosse mais um episódio da "guerra particular" que o PCC travava com integrantes das polícias paulistas - principalmente em se tratando de um PM integrante da Rota. No decorrer do caso, uma versão surpreendente surgira, sustentada pelos investigadores do crime: os policiais militares, mais suas parentes também assassinadas, tinham sido mortas pelo filho do casal, de 13 anos, que posteriormente cometeu suicídio. A previsão para a conclusão dos laudos periciais está prevista para daqui a 20 dias, momento que tem criado expectativa em quem acompanha o caso, já que dois fatos lançaram uma névoa sobre a assertividade das investigações na versão do crime em família: 1. Uma vizinha diz ter visto PM pular muro de casa antes de crime ser notificado; 2. O comandante da PFem disse que a policial morta denunciou colegas dias atrás. O ponto é que o Governo de São Paulo "apertou" o comandante da policial, que mudou sua versão após a constatação de que, sem qualquer registro formal da denúncia por parte da policial, ele não poderia ter afirmado tal fato. Ou se omitiu ao não formalizar a denúncia ou falou o que não ocorrera: O secretário da Segurança Pública de São Paulo, Fernando Grella Vieira, afirmou que o coronel Wagner Dimas, que disse não acreditar que o estudante Marcelo Pesseghini, 13, tenha matado a família e se matado em seguida, terá que prestar esclarecimentos à corporação. O jovem é suspeito de ter atirado nos pais, o casal de PMs formado pela cabo Andreia Pesseghini, 36, e o sargento Luis Marcelo Pesseghini, 40, na casa da família na Brasilândia (zona norte). Além deles, foram mortas a avó e a tia-avó do garoto. Na quarta-feira, o coronel, que comandava o batalhão onde Andreia atuava, disse em entrevista à rádio Bandeirantes que ela havia denunciado colegas de farda por envolvimento em roubos de caixas eletrônicos. No dia seguinte, ele voltou atrás e disse que "se perdeu" na entrevista. O recuo foi feito em depoimentos à Corregedoria da PM e ao DHPP (departamento de homicídios da Polícia Civil). "Não temos informação em Corregedoria, no comando geral e no próprio batalhão [onde Andreia atuava] de que a mãe do garoto teria delatado colegas", disse Grella. O secretário disse que foi instaurado um procedimento interno para que o coronel preste esclarecimentos. "Queremos saber por que ele falou isso, se tem fundo de verdade ou não tem. Porque, se ele sabia dessa denúncia e não tomou providência, houve uma irregularidade", afirmou. A Folha apurou que as declarações de Dimas irritaram o comando da corporação, já que batiam de frente com a investigação da Polícia Civil. Para Grella, não há nenhum dado objetivo que enfraqueça a hipótese de homicídio seguido de suicídio. O ponto é que, em termos políticos-institucionais, para o Governo de São Paulo, a versão da autoria do filho do casal encerra todas as questões relativas a este crime bárbaro em um desvio de conduta individual, ou familiar, já que os pais teriam ensinado o adolescente a dirigir e manusear arma de fogo. Caso esta versão seja refutada, as questões passam a ser outras, muitos mais desgastantes e  dignas de discussão e investigação política. De qualquer modo, torcemos para que os efeitos desta tragédia cessem o mais breve possível, e que a verdade venha à tona.
Entendo muito sobre contextos onde se pratica violência supondo, com isso, por maldade ou ingenuidade emotiva, que se está evitando que violências outras ocorram. Infelizmente, nas instituições policiais brasileiras ainda se ouve muitos discursos e se enxerga muitas práticas onde a arrogância repressiva é praticada com o argumento falacioso do "combate à criminalidade" ou outros demônios criados para dar vazão a certas necessidades (e elas são múltiplas!) injustificáveis. Quase todos os dias, neste blog, tratamos do tema da violência policial, criticando-a, contrapondo-a, desconstruindo-a. Sob a pecha de "esquerdista", "intelectualóide", "defensor de bandido" e pérolas semelhantes - mas sem perder a crença e a firmeza na construção pacífica e democrática de uma polícia, e por isso uma sociedade, melhor. Neste contexto, não podemos deixar de assumir postura assertiva em um comentário feito por um grande cartunista brasileiro que, parece, cometeu o mesmo erro que costuma criticar: tentou combater violências cometendo violência. Me refiro a Carlos Latuff, algumas vezes citado e exposto  aqui no blog (através de suas charges), que publicou a seguinte desumanidade em relação à morte de um casal de policiais militares de São Paulo (um deles da ROTA), onde se suspeita que o filho do casal cometeu os assassinatos: Este é o tipo de leviandade que aprofunda o clima de embate explosivo entre quem defende polícia digna, profissional e cidadã em oposição a práticas pouco democráticas e humanitárias. Por preguiça intelectual ou rancor, muitos de nós - legítimos defensores dos Direitos Humanos, policiais ou não - acabamos nos afastando de uma agenda propositiva responsável, que garanta a mudança do status quo. É duro ver atingido deste modo um patrimônio de aproximação e diálogo tão frágil, construído com muito esforço por todos que convivem com a necessidade de consensos pacíficos que favoreçam a democracia. Este tipo de postura faz com que o policial pense o seguinte (como um colega falou quando comentou a publicação de Latuff): "Como vou ter empatia e acreditar no discurso de um cara que comemora a morte de pessoas como eu?". Acredito que o Latuff, com todo o seu patrimônio positivo de crítica à violência, principalmente a policial, irá se retratar. Este é o desejo de quem admira seu trabalho, mas não concorda que se cometa violência para justificar o combate à violência.
No início de julho, divulgamos aqui a notícia alvissareira de que a Polícia Militar do Estado de São Paulo está matando menos. Após a medida do Governo do Estado que restringiu os socorros prestados por policiais após confrontos, a capital paulista, por exemplo, teve 84% menos mortes promovidas em ações policiais. Em carta enviada ao governo de São Paulo, publicada nesta segunda na imprensa, a ONG Human Rights Watch (HRW) reconheceu esta evolução: É digno de mérito notar que as estatísticas oficiais do Estado apontam para uma redução na taxa de homicídios de 63% no Estado e 80% na capital desde 2000.[1]Observamos, ainda, uma redução de aproximadamente 34% nas mortes causadas por ação policial durante os primeiros seis meses de 2013 em comparação com o mesmo período em 2012. [...] Outrossim, reconhecemos que o governo do Estado tem tomado providências relevantes para conter execuções extrajudiciais e o seu acobertamento por policiais como, por exemplo, a nova medida de janeiro de 2013 determinando que policiais envolvidos em confrontos acionem imediatamente a equipe do resgate SAMU ou o serviço local de emergência, em vez de eles próprios transportarem as vítimas para hospitais. Saudamos, também, as reiteradas declarações de autoridades estaduais condenando abusos policiais e assegurando a punição dos oficiais que os cometem. Considerando que policiais corriqueiramente enfrentam sérias ameaças de violência, há, incontestavelmente, um certo número de mortes decorrentes de intervenção policial resultantes do uso legítimo da força. Ao tempo em que destacou estes resultados, a ONG divulgou dados, no mínimo, preocupantes em relação ao que vem ocorrendo no estado em relação aos confrontos entre policiais e suspeitos. Por exemplo: "Em 317 ocorrências de resistência entre 02 de janeiro e 31 de dezembro de 2012, envolvendo policiais civis e militares, em serviço ou de folga, a polícia transportou 379 pessoas para os hospitais. Entre elas, 360 (ou aproximadamente 95%) foram a óbito." Outra preocupação manifestada pela HRW se refere à mais famosa unidade de repressão da PMESP, a ROTA. Num total de 259 ações de uso da força da ROTA, entre 2010 e 2012, em apenas 12 o suspeito não morreu na ação. Está correta a HRW quando afirma que os dados apresentados são preocupantes: demonstra uma relação de uso da força desmedido, incompatível com um nível civilizatório minimamente adequado ao que entendemos por democracia. Em qualquer lugar do mundo onde a polícia precise usar a força e em 95% dos casos o desdobramento é letal não há dúvida que há algo pouco civilizado acontecendo - sendo moderado no julgamento. Que estes números, relativos a 2012, sejam significativamente amenizados em 2013, como já vem ocorrendo. E que os policiais possam usar a força (inclusive a letal, se necessária) sem questionamentos de legitimidade em virtude dos excessos cometidos por quem não tem compromisso com o profissionalismo e o respeito à dignidade humana. Leiam toda a carta da Human Rights Watch (HRW). Vale a pena!
Um pensador, pesquisador e gestor que sempre orienta minhas reflexões sobre segurança pública e polícia é Luiz Eduardo Soares, autor de inúmeras obras sobre a temática, e provavelmente um dos currículos mais significativos na área. Em recente entrevista à Folha de São Paulo, Luiz Eduardo foi, em poucas palavras, incisivo, sobre o contexto atual da segurança pública no país. Abaixo, parte da publicação da Folha, que o leitor pode ter acesso na íntegra clicando aqui. FOLHA - Em um artigo recém-publicado, o sr. comenta que na Constituição "não ousamos tocar no cordão umbilical que liga as Polícias Militares ao Exército". Por que o sr. acredita que após 25 anos este ponto ainda não tenha sido revisto? LUIZ EDUARDO SOARES - Esse é o grande enigma. Já escrevi muito a esse respeito, mas nunca me dei por satisfeito. Sempre me pergunto: como é possível que um país que se transforma todo o dia possa enfrentar um de seus maiores problemas, a insegurança pública, com instituições organizadas pelo passado. Claro, na transição era preciso aceitar as imposições dos militares. Mas se passaram 25 anos. Não há como justificarmos nossa inércia com temores de golpes militares. Que forças políticas sustentam essa inércia? Diria que os conservadores nunca se movimentaram por temerem que a situação se agravasse. Já as esquerdas não foram capazes de formular uma proposta para a segurança pública. De um lado, por preconceito que vem da tradição marxista, que vê polícia como instrumento de dominação de classe. Outros acham que não devemos gastar energia porque para reduzir a violência se deve investir só em educação. E o governo? Os governos estaduais se sentem constrangidos, como se estivessem sob ameaça das forças policiais. Os governadores acabam adotando discursos mais realistas do que o do rei. Já o governo federal acaba avaliando que mesmo necessárias, as reformas não seriam convenientes. Mais responsabilidade à União significa mais cobrança. Quando o governo Dilma completou nove meses o sr. escreveu um artigo para a Folha classificando o início da gestão como decepcionante em termos de segurança pública. Que avaliação faz hoje? O governo Dilma representa um passo atrás. Era possível cobrar o governo Lula pela timidez, que não lhe permitiu avançar para promover as reformas, por razões que também imobilizaram Fernando Henrique Cardoso. No segundo governo Lula, foram tomadas medidas significativas. Ainda que insuficiente, o Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania significou algo. Mas Dilma decepciona porque até os avanços foram desorganizados. É retrocesso sem avanço. O sr. fala em seu artigo sobre a necessidade de reformar o artigo 144 da Constituição. Que pontos teriam de ser mexidos? O artigo 144 atribui pouca responsabilidade à União com relação à segurança pública. A União tem sob sua responsabilidade somente duas polícias, a Rodoviária e a Federal. Elas são importantes, mas longe de cobrir todo o espectro de desafios que a sociedade enfrenta. E qual o papel do município? Ele praticamente não existe, o que contradiz o processo histórico brasileiro recente. Depois da Constituição de 1988, municípios passaram a ter envolvimento crescente em áreas como saúde e educação. O artigo 144 diz que municípios só podem formar guardas municipais, cuja missão é cuidar das estátuas e prédios municipais. Mas as guardas municipais estão se proliferando pelo país, como no caso de São Paulo, onde há quase 10 mil guardas. Isso não é inconstitucional? É polêmico. Qualquer cidadão pode prender qualquer outro cidadão que esteja cometendo um crime, desde que isso seja feito em flagrante. Pode-se argumentar que os guardas municipais só prendem em flagrante, e que quando o fazem agem como cidadãos. Mas é claro que na prática muitos estão armados, usam distintivos e atuam como policiais. De que modo a redistribuição das forças policiais e a intensificação do papel da União poderiam melhorar a segurança? Para dar um exemplo, a União deveria supervisionar a educação e formação dos policiais. Hoje estes pontos são decididos de modo autônomo pelas instituições de cada Estado. Temos situações como a dos policiais contratados para as UPPs, no Rio, que estão sendo capacitados em três meses. Três meses mesmo para quem nunca foi policial? Sim. É inacreditável. Nas polícias temos um quadro babélico. Um Estado pode formar um policial em um ano. Outro, em dois meses. Já aconteceu no Rio de policiais serem formados em um mês. E não é só o tempo. Não há nenhuma padronização de currículo. Não defendo a imposição de um currículo único, mas um ciclo básico nacional seria razoável. As UPPs estão prestes a completar cinco anos. Que balanço seria possível fazer delas? É um projeto muito importante, mas não representa política pública porque não se universaliza. Isso não será alcançado sem reformas. Com as polícias do Rio será impossível. Apesar de terem milhares de profissionais honestos, as polícias do Rio têm outros milhares envolvidos em crimes. Não há um só crime importante no Rio sem a participação da polícia. E qual a sua avaliação do quadro da segurança de São Paulo, que vive a retomada do crescimento dos homicídios? Para agradar setores da opinião pública que pedem políticas duras e para evitar constrangimentos com as forças policiais, os governos acabaram tolerando a brutalidade policial. Como os números caíram, não por conta da brutalidade, os governos acabaram tolerando a violência. A valorização da Rota pelo secretário anterior endossava certa postura na qual a corrupção não é tolerada, mas a brutalidade sim. A resolução que estabelece que PMs não podem prestar socorro às vítimas é uma mudança importante? Sim. O novo secretário de São Paulo, que não conheço, me pareceu muito bem intencionado. Esta medida busca claramente conter as chacinas.
Os efeitos da Resolução nº 8, de 20 de dezembro de 2012, Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, da Presidência da República, já são sentidos na prática - as polícias de São Paulo são as primeiras a assimilar e admitir que policiais não prestem mais socorro a vítimas de violência em ocorrências policiais: A partir desta terça-feira (8) todos os policiais de São Paulo que atenderem ocorrências com vítimas graves não poderão socorrê-las. Elas terão de ser resgatadas pelo Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) ou pela equipe de emergência médica local. Entende-se como graves os casos de homicídio, tentativa de homicídio, latrocínio (roubo seguido de morte), lesão corporal grave e sequestro que resultou em morte. Nesse rol de crimes estão inclusos os que tiveram a participação direta de policiais. A decisão do secretário da Segurança Pública Fernando Grella Vieira está em uma resolução que será publicada no "Diário Oficial". A Folha apurou que o objetivo da mudança no procedimento operacional é, entre outros, evitar que a cena do crime seja alterada por policiais e garantir que o atendimento às vítimas seja feito por profissionais habilitados, como médicos e socorristas. "Mais importante do que socorrer rapidamente é socorrer com qualidade. Nos acidentes de trânsito o policial não pode socorrer. Nos casos de homicídio deve ser assim também", afirmou o coronel da reserva da PM José Vicente da Silva Filho, que discutiu o tema com o secretário. Para o sociólogo José dos Reis Santos Filho, a medida é positiva ao preservar o local do crime, o que interfere na apuração futura dos fatos. A preocupação dele, no entanto, é com os casos em que uma simples atuação do policial pode salvar uma vida. "Em um caso de urgência, sabendo que o socorro vai tardar, o policial tem condições de fazer um torniquete, ele vai ficar parado, assistindo a pessoa morrer?", questionou. Considero a medida acertada. Os demais estados deveriam adotar o mesmo posicionamento, deixando claro o limite da intervenção policial na cena do crime.
Em 2012 vimos definhar o PRONASCI, a maior iniciativa Federal da história do país no campo da segurança pública, ao tempo em que muitas polícias militares brasileiras, já sem a Bolsa Formação (complemento salarial de 400 reais concedido pelo PRONASCI), realizaram movimentos reivindicatórios explosivos nos estados, a exemplo do Ceará, Bahia e Rio de Janeiro. Aliás, o mundo parou para assistir a greve dos policiais militares baianos, com direito a intervenção duvidosa da Rede Globo, através do Jornal Nacional. São Paulo também foi destaque: Pinheirinho e a relação explosiva entre policiais militares e integrantes da facção criminosa chamada PCC gerou mortes e destruição. Aliás, nunca se viu tantas mortes de policiais, não só em São Paulo, mas no Brasil. 2012 foi o ano em que policiais começaram a despertar para sua força política, mas também entraram em conflito e confrontos, por pura falta de sorte, falta de bom senso, erro operacional e até e até mesmo truculência. Rita Lee xingou policiais militares em um show, Datena negociou com sequestrador em programa ao vivo, o Governador do Paraná disse que PM's com curso superior tendem a ser insubordinados. Ainda há polícias que não reconhecem o policial como cidadão, e tolhem, ou tentam tolher o direito de manifestação de seus homens e mulheres - principalmente quando se trata de publicações na internet. Parece não ser à toa que a ONU recomendou a extinção das polícias militares brasileiras. A legalização da maconha ganhou espaço enquanto tema relevante, e o Uruguai chegou  a editar lei sobre o assunto. Nos EUA, a discussão sobre a difusão de armas de fogo entre a população civil ganhou corpo, após sucessivos ataques com grande número de mortos, inclusive crianças. 2012 foi o ano em que ex-membros do primeiro escalão do Governo Federal foram condenados por corrupção, com perspectiva de cumprimento da pena em 2013. Torcemos para que a justiça seja feita, e que o ano vindouro seja mais surpreendente e pacífico do que 2012. Um feliz ano novo a todos!
Lançado em 1992, o livro Rota 66 – A história da Polícia que mata (350 pág.), cujo autor é Caco Barcellos, não deixa de ser um referencial do jornalismo no campo do livro-reportagem, ao tratar de um tema sensível como os confrontos policiais em serviço. A escolha da ROTA, unidade de elite da PMESP, foi bastante acertada em virtude do seu renome nacional, mas a metodologia utilizada no trabalho é falha e digna de críticas. O autor se vangloria de ter produzido conteúdo a partir de arquivos cujo acesso era dificultado, quer seja pela desordem, que exigiu esforços no sentido de organizar, ou pelas limitações de acesso, que obrigaram a cópia à mão de centenas de documentos. Todo esse empenho elogioso é prejudicado pela intenção tendenciosa de obter determinado resultado a qualquer custo, valendo-se de expedientes equivocados e inválidos. De fato há casos de abusos comprovados, onde os policiais erraram e deveriam ter sido punidos, quando se constata evidentemente que uma arma de fogo foi inserida na cena de um crime onde não existia, por exemplo. O problema são as conclusões falaciosas, com base em premissas falsas. A mais comum ao longo da obra é considerar como inocente todos aqueles que não possuem antecedentes criminais. Fica parecendo que, antes de cometer o primeiro crime, o bandido se cadastra em algum órgão e passa a ser fichado, o que todos sabem não se tratar da realidade. Muitos criminosos praticam inúmeros delitos até que sejam presos pela primeira vez, sem que isso lhes reduza a periculosidade – pelo contrário, tem aqueles que estreiam com estupro e homicídio, e outros reincidentes que jamais praticam violência, se limitando a pequenos furtos, estelionato etc. (mais…)
O novo Comandante Geral da Polícia Militar do Estado de São Paulo, Coronel PM Benedito Roberto Meira, assumiu o cargo tendo como principal discurso a qualificação do trato dos policiais com o cidadão nas ruas. Para ele, a abordagem policial é o principal "cartão de visitas" da corporação, sendo fator determinante na visão que a população tem da polícia. O Coronel também se mostrou preocupado com a apologia à violência feita por policiais nas redes sociais: O novo comandante-geral da Polícia Militar, coronel Benedito Roberto Meira, de 50 anos, quer combater a truculência nas abordagens e revistas feitas por policiais nas ruas de São Paulo. Ele acredita que elas são o principal "cartão de visitas" da corporação e instrumento estratégico de combate ao crime. "O contato corporal deve ser feito de forma firme e respeitosa. O cidadão deve ser abordado com dignidade, sabendo o motivo da ação policial. Como diariamente são feitas inúmeras revistas, quando as ações são bem feitas, podem ajudar a tornar a imagem da polícia positiva", afirma. A Polícia Militar faz cerca de 11 milhões de abordagens por ano. "As revistas são instrumento fundamental no combate ao crime. Assim apreendemos armas, identificamos suspeitos e procurados. Por isso, creio que devemos aperfeiçoar a forma como essas ações são feitas", diz. Meira também pretende se empenhar para melhorar a imagem das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota). Um dos focos do novo comandante são as redes sociais. Ele quer acionar legalmente quem associar a imagem do batalhão com o símbolo da caveira e com ações assassinas em páginas do Facebook. Grupos como Admiradores da Rota, por exemplo, têm mais de 100 mil seguidores, muitos deles policiais militares que publicam as próprias ocorrências na internet. A ideia do comandante-geral é ter uma página oficial da Rota na internet. "Tomaremos as medidas legais cabíveis contra quem associar à Rota a imagem equivocada da ilegalidade e da violência, que não condizem com a filosofia da Rota", diz. Legítimas preocupações, que precisam ser bem esclarecidas no momento que vive a tropa da PMESP, evitando o sentimento de "caça às bruxas" justamente quando homens e mulheres PM's têm suas vidas ceifadas pelo crime organizado. Como já dissemos aqui, os policiais militares precisam ser norteados e acolhidos, evitando-se desespero e atitudes isoladas irresponsáveis.
Todos vêm acompanhando o clima de tensão vivido no estado de São Paulo, principalmente entre os policiais militares, que vêm assistindo a morte de colegas por supostas represálias cometidas a mando de lideranças do chamado "Primeiro Comando da Capital". Entre os casos mais chocantes está o assassinato do sargento PM Marcelo Fukuhara, que teve a vida "colocada a prêmio" pelo PCC por R$500 mil reais, segundo divulga a imprensa. Por outro lado, as ações da Polícia Militar que resultaram em mortes de suspeitos aumentaram. Tanto quanto cresceram os casos de execuções de pessoas com autoria atribuída a policiais integrantes de "grupos de extermínio". Se não podemos ter a ingenuidade de entender que todos policiais militares estão cumprindo a lei em suas ações, em serviço ou não, também é esdrúxulo admitir que o Primeiro Comando da Capital tem alguma "causa" legítima em suas ações criminosas. Comete perversidade quem admite o assassinato de um policial. Comete perversidade o policial que admite matar fora dos preceitos legais. Como sempre é característica das discussões sobre segurança pública, definir o "bem" e o "mal" é ser cego às inúmeras variações possíveis neste contexto. E geralmente quem assume um desses lados são os executores, a "ponta do sistema". Julgo que os setores estratégicos do Governo e do PCC entendem melhor o que está ocorrendo do que o soldado que se dispõe a matar, ou o jovem da periferia que pretende executar um policial. Aos policiais, é lúcido não aderir ao entusiasmo sanguinário que caracteriza os fora-da-lei: é bom lembrar que nenhum governo tolera abusos frente à pressão midiática, tampouco é proveitoso ingressar num jogo de vingança avesso ao fundamento da atividade policial – salvaguardar a vida. Ao se manter distante deste ambiente, o policial protege a si, a sua família e à sociedade.