Durante a crise, empresas de segurança privada crescem no Brasil 
Governo Temer planeja endurecimento de penas no Brasil 
Como as crianças brasileiras percebem a violência? 

Vitimização

Do ponto de vista do desenvolvimento de políticas públicas visando prevenir e reduzir a prática de violências na sociedade é fundamental ter conhecimento de dois fatores: quem são as vítimas e quem são os agressores. Ou seja: qual o sexo, a idade, a escolaridade, a que classe social a que pertencem? Onde residem, que profissão exercem, qual sua religião e cor da pele? Ao obter um padrão geral acerca das características dos envolvidos em ocorrências criminais, cabe ao Poder Público definir a estratégia de atuação para sanar o problema. No Brasil, entretanto, é muito recente a prática, ou a pretensão de análise minuciosa dessas características, seja porque a maioria dos gestores públicos consideram o ônus político-eleitoral de expor com clareza as violências de seu reduto político, seja por simplesmente ignorar que esse diagnóstico é o primeiro passo para o desenvolvimento de estratégias eficientes. Nesse sentido, embora bastante genérica, a Pesquisa Nacional de Vitimização recém-publicada pela Secretaria Nacional de Segurança Pública (que chamou bem menos atenção das mídias do que o decote de Fernanda Lima no sorteio das seleções para a Copa) é um grande avanço. Para obter os resultados, foram entrevistados aproximadamente 78 mil pessoas em 346 municípios no período de junho de 2010 a maio de 2011 e junho de 2012 a outubro de 2012. Entre os dados colhidos, que apresentaremos parcialmente aqui no blog no decorrer dessa semana, está a natureza dos agressores às vítimas de violência no período citado. Confiram: Como se vê, seja no âmbito do Governo Federal ou mesmo de uma Delegacia de Polícia ou Batalhão da PM essas informações podem ser muito úteis para definir a atuação policial e de outros órgãos do sistema de justiça criminal. Baixe aqui a pesquisa na íntegra e acompanhe nossos posts com outros comentários e apresentação de dados.
Mensurar dados sobre segurança pública meramente através da estatística oriunda dos registros formais em delegacias é sabidamente uma maneira limitada e parcial de se ter uma noção da real situação na sociedade. Uma das maneiras de se buscar alternativa para tal distorção é o questionamento direto à população buscando obter informações sobre suas vivências, através de pesquisa de vitimização. "O que é uma pesquisa de vitimização? Uma pesquisa de vitimização consiste em uma série de perguntas feitas a pessoas escolhidas para representarem a população, sobre terem ou não sido vítimas de algum tipo de crime. As pesquisas de vitimização visam ajudar a segurança pública, fornecendo dados realistas sobre a criminalidade e a violência. Neste sentido são instrumentos importantes do planejamento estratégico da polícia, indicando tipos de crime e áreas, e pessoas mais expostas. Servem também como base de estudos sociais que permitem uma atuação mais eficaz das políticas públicas sobre a violência." Algo nesse sentido foi realizado em Salvador-BA pelo Instituto Maurício de Nassau, entre os dias 14 e 15 de abril, com 1.108 entrevistados e o resultado culminou em matéria no jornal Correio, constatando-se algumas afirmações que merecem ao menos uma reflexão, indagações, ponderação. O soteropolitano considera a polícia baiana ineficiente A recíproca é verdadeira. A polícia baiana também pode considerar o soteropolitano ineficiente, a depender do referencial, no que compete às responsabilidades constitucionais estabelecidas para todos. Quase toda a sociedade, de algum modo, participa do ciclo do crime, seja através da cumplicidade, da aquisição de produtos sem nota fiscal, da pirataria, oferecimento de propina, entre tantas outras ilicitudes praticadas pelo cidadão dito normal. Sem contar que eficiência na prestação de serviços não é tradição na maior parte do comércio desta terra, nem em escolas, hospitais, órgãos públicos etc. Claro que existem exceções, mas, resumidamente, muitas vezes paga-se um preço alto, extra, pelo que deveria ser o padrão mínimo de qualidade, seja na esfera pública ou privada. "Dos 29,4% que declararam já ter sofrido assalto em via pública de Salvador, 49,2% não procuraram a delegacia para fazer o boletim de ocorrência. Para o coordenador da pesquisa, o professor Adriano Oliveira, doutor em ciência política, as pessoas não procuram as delegacias após serem vítimas de um crime porque não acreditam na eficiência do trabalho policial." Meia verdade. A descrença na eficiência não é a única razão, há ainda outras de extrema relevância. Sem falso bairrismo, é preciso aceitar que há muita gente preguiçosa, daqueles que deixam de votar preferindo dormir ou ir à praia na eleição, entre outras práticas de pouca civilidade. A dinâmica metropolitana é desestimulante para que se consumam horas nesse processo e, considerando a hipótese de ser mal atendido na delegacia, admitida inclusive no texto pela professora universitária Heloniza Costa, uma das coordenadoras do Fórum Comunitário de Combate à Violência (FCCV), o desestímulo torna-se maior ainda. Mas é ainda obrigação moral do cidadão envidar esforços para registrar a ocorrência de imediato, do contrário não chegará ao conhecimento das autoridades a ocorrência de crimes em determinada área, dando a entender que está tudo tranquilo, quando na verdade pode ser o extremo oposto. PC em greve: assim as ocorrências chegam a zero facilmente – Foto: Luciano da Matta/A Tarde "Forma- se um ciclo negativo: os policiais não conseguem prender os bandidos quando o cidadão procura a delegacia, então, as vítimas deixam de procurar a polícia porque não acreditam que vão obter resultados", explicou o professor. Verdade, vale acrescentar algo. Muitas vezes, policiais não logram êxito na captura por falta de meios, recursos, condições. Noutras tantas, há apatia e desmotivação pela mesquinhez e egoísmo do "não é problema meu". Sem contar nos casos de policiais que incorporam a ideia de serem pagos para não fazer nada, bastando manter-se inerte o mês inteiro que a estabilidade assegura o salário certo todo final de mês — alguns dessa vertente tornam-se ainda mercenários caçadores de recompensa, solicitando ou exigindo quantias em dinheiro para solucionar problemas para os quais já é pago pelo Estado, e consequentemente pelo contribuinte, para que resolva. O secretário questionou também os números. "Como essas pessoas que sequer estiveram numa delegacia para registrar queixa podem saber se os criminosos que os assaltaram foram ou não presos? Esses números obtidos pela pesquisa são questionáveis", argumentou Nunes. Faz sentido. A estatística policial sempre precisa ser interpretada sob diversos aspectos, e geralmente não é possível chegar a grandes conclusões definitivas através dela. São parâmetros, referenciais para que não se perca o azimute, norteando as políticas a serem adotas, mas sempre cabem alguns questionamentos e ajustes.